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Friday, 7 July 2006

O Diário Trágico De Carmina Paixão - Ponto 009

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Naquela manhã, como na maior parte das manhãs, Carmina fora a primeira a acordar, em toda a casa.

A Villa Paixão era um pequeno palácio cuja construção datava do fim do século XIX. Com um aspecto robusto e pesado, cheio de enormes janelas, a Villa Paixão sempre fora um dos edifícios mais interessantes de Belas. O povo contava, em tempos, imensas histórias sobre amores e desamores relacionados com aquela casa, mas as sucessivas remodelações ao edifício pareciam ter alterado também os factos sobre tais relatos e já ninguém vivo conseguia contar até ao fim uma única história de amor.

No piso de cima, para além dos quartos e casas de banho havia uma pequena sala de estar, que servia também como sala de fumo e segundo escritório. Um arco largo dividia a área da sala em duas, deixando os sofás de veludo verde a ocuparem a zona da sala onde estava a porta e um combinado de madeira escura na zona oposta. Ainda que a casa tivesse um total de dez divisões (sem contar com cozinhas e casas de banho), os excessos sociais de Jacinta Paixão, haviam ceifado, no início dos anos noventa, dois quartos de hóspedes, reduzindo assim o número de quartos com cama para quatro. Assim, quando passavam a noite na Villa Paixão, Bárbara e Ondina acabavam sempre por dormir nesta sala, num baixíssimo colchão de espuma, embora fossem as duas alérgicas à alcatifa.

As mais novas raparigas da família Paixão dormiam, deste modo, lado a lado, sonhando sossegadamente. Bárbara sonhava que estava atrasada para um concerto da sua banda preferida e que, quando finalmente chegava ao recinto, quem estava no palco era o Inspector Arlindo, um porquinho da índia sem qualquer espécie de utilidade. Já Ondina, sonhava simplesmente com electricidade. De repente, os sonhos delas morreram.

Todo o resto da casa acordou ao mesmo tempo com o grito de Carmina Paixão.

Tonta e com a visão turva, Bárbara endireitou-se imediatamente e Ondina imitou-a.

- Ba, o que é isto? - perguntou Ondina, muito menos tonta do que a irmã.
- Não sei, não deve ser nada. Dorme, Dina - disse-lhe Bárbara, tentando manter uma postura calma.

No entanto, as portas ao longo do corredor foram sendo abertas e Ondina, percebendo que muitas pessoas deviam estar já fora dos quartos, levantou-se e correu para a porta. Bárbara viu-se obrigada a segui-la.

- Não saias já. Espera por mim - com firmeza nas palavras, Bárbara conseguiu parar Ondina.

A irmã mais velha levantou-se serenamente e embora o seu coração estivesse ligeiramente acelerado, sorriu tranquilamente a Ondina e piscou-lhe o olho. Contudo, assim que chegou à porta, sentindo que de entre as muitas coisas que aquele grito podia significar, se encontravam algumas chocantes para a irmã mais nova, Bárbara pediu-lhe:

- Se eu te disser para voltares aqui para a sala, voltas imediatamente, estamos entendidas?

Ondina disse que sim. A adolescente abriu a porta e deu de caras com um corredor ainda escuro, já que as portadas das janelas eram sempre fechadas, antes de Maria se ir deitar. Tendo anteriormente percebido, pelos sons, que as portas abertas se encontravam à direita da sala, começou a dirigir-se para a esquerda, onde se encontravam os quartos da tia e de Maria, mas Ondina puxou-a por um braço com uma força surpreendente.

- Não! Ba, temos de olhar sempre para os dois lados antes de andarmos! - sussurrou Ondina, visivelmente assustada.
- O quê?
- Temos de olhar para os dois lados antes de andarmos! O Gonçalo ensinou-me isso ontem!
- Dina, temos de olhar para os dois lados se estivermos na rua. Dentro de casa não é preciso.
- É sim! O Gonçalo disse que era sempre, em todo o lado!
- Sim, Dina. Sempre, em todo o lado, mas na rua.
- Não! - Ondina estava à beira das lágrimas.
- Ok! Ok! Olhamos para os dois lados e vamos - suspirou Bárbara, olhando para os dois lados. - Pronto, já está. Agora vamos.

Ao fim de meia dúzia de passos, a irmã mais velha viu que a pouca luz no corredor vinha do quarto de Carmina e pegando na irmã pela mão dirigiu-se decididamente para lá. Ondina lá foi olhando para um lado e para outro, embora dos dois lados houvesse apenas parede. Ao aproximarem-se começaram a ouvir um burburinho invulgar. Alguém repetia continuamente "meu Deus". Alguém disse "não acredito". Alguém estava a contar muito depressa e baixinho.

Então, segurando Ondina pelos ombros, Bárbara alcançou o quarto e encostou-se à ombreira da porta. O cenário era assustador. A primeira coisa que viu foi o avô abraçado à tia Carmina. De seguida, só conseguiu olhar para o pai, que tentava reanimar Miguel.

Para Bárbara era óbvio o que tinha acontecido e Ondina também percebera tudo, assim que o seu olhar pousara nos tornozelos de Miguel.

O coração de cada uma batia cada vez mais depressa. Juntando-se ao silêncio frio que se instalara no quarto, Bárbara e Ondina respiraram bem fundo e deixaram que os seus sentimentos e desejos se instalassem em toda a sua força. Não houve, em nenhuma das duas, lugar para pensamentos estruturados - apenas a sensação rápida e forte de um único sentimento e de um único desejo.

Então, quando Bárbara achou que o seu batimento cardíaco não podia aumentar mais, Carmina saiu do transe silencioso.

O choque deu lugar à dor e a dor deu lugar às lágrimas.

Carmina chorou compulsivamente durante quarenta minutos.

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(UmaDasPartes)

13 comments:

Danny said...

Interessante e curtido.

Vou esperar mais um ou dois pontos para dizer-te o que acho.

Até porque isto está mesmo a pedir que se releia de inicio, de enfiada, pa ver se o que sentimos e achamos faz sentido.

Entretanto, gosto do tom protector da barbara, gosto do porquinho da india policia e gosto do olhar pa esquerda e direita "sempre e em todo o lado".

Cá esperamos pela continuação da "saga".

[]'s

nhi said...

Gosto. Gosto muito de ver um mesmo acontecimento da perspectiva de outros personagens, que ainda por cima sonham com o Porquinho da India amigo da Laura Leila (e com electricidade...ehe, a Ondina é sem duvida alguém muito especial).
Pronto e agora esperamos (ansiosamente) por mais um episódio de O Diário Trágico (e em tons carmim) de Carmina Paixão.
Ai e gosto da sala, gosto muito da sala (onde a Bárbara e a Ondina dormiam)! Gosto, gosto.

Um Nhi com muito gosto!

Nhi.

Leonor said...

Eu já sei quem é que matou o Miguel... Depois do que eu ando a ver não tenho a mínima dúvida. Ela, para além de ter tirado a chave do cacifo nº12, NAO tirou a do armazem, mas sim da Villa Paixão. Entrou lá e enforcou o Miguel com a bata do supermercado!

nhi said...

Lolol, os Caminhos do Anel abrangem o Tempo de Viver e a belíssima...hum...personagem da Alexandra Lencastre de quem não me estou a lembrar muito bem do nome!!

Leonor...andas um bocado obcecada com a novela an?

Nhi.

nhi said...

Que disparate!! abrangem a Maria Laurinda, porque a pobre Alexandra Lencastre estava sossegadinha a fazer Bip Bip enquanto passava os produtos pra vender.

Nhi.

Margarida said...

=) gosto da forma cmo das importancia aos pormenores, fazendo tudo parecer suspeito! *

ju said...

mto bem! aparentemente isto deixa ondina de fora do crime.... mas eu creio que ondina é a chave de tudo!
afinal... "ondina tinha um coelho" e ouvia vozes e matou os pais ou melhor "esquartejou-os à bruta!"
são só suspeitas, mas eu acho que ela consegue coisas só pelo poder da mente...pode ter morto o Miguel com um choque eléctrico vindo directamente do seu sonho!

jinhos!

Andreia said...

Estava a tentar imaginar como seria sonhar com electricidade....ainda n percebi quem matou o Miguel, e parece que cada vez estou mais longe de descobrir (aposto que no fim vai ser ovbio).
Gosto do Inspector Arlindo. Esta historia e tão gira..era bom e que escrevesses mais vezes =) *

Anonymous said...

Sim! Escrever mais vezes ajudava!
Sonhar com a electricidade... fiquei uns minutos a pensar como seria também...
E não. Não foi a Carmina que matou o Miguel! Seria muito cliché.
A Ondina é de facto a personagem especial ali presente. Sem dúvida, única! =D

Agora trata de escrever! Em vez de fazeres directas que te trazem nada mais que arrependimento, ocupa esse tempo a escrever!

"Já Ondina, sonhava simplesmente com electricidade."

Guess

Gui said...

eu tamb]em gosto.gosto da m]usica que tens aqui na tua radio!(smilie face)

***

Ps. contam/se os anos que j]a n vinha c]a...

Ps2. Vcs ontem...o que e que vos passou pela cabeca...a quem tenha parafusos a menos...bem, no vosso caso acho k o que vos faz mesmo falta e 1 mexicano tds os dias ao pequeno almo;o...uns topogigios (cm tu lhe xamas)...uns quesos fudidos lol...enfim enfim...temos de repetir o) beijos***

ni said...

ondina não é a chava, o que é a chave, na minha opinião, é o que ondina guarda.
****

Anonymous said...

O que é que estava debaixo da almofada?!
O que é que estava debaixo da almofada?!

Esta não me sai da cabeça...e agora as manas e os seus sonhos...hummm...

Mais, quero mais!

Margarida said...

assim de repente...quem é o gonçalo??