Penso deprimentemente que sou um problema sem solução.
Porque será que os momentos de felicidade me parecem tão únicos, tão especiais, tão diferentes uns dos outros e os momentos de tristeza me parecem todos parte do mesmo? Quando estou triste, regra geral por me cortar na lâmina fria da realidade, sinto sempre o mesmo: em vez de experimentar uma sensação nova, limitei-me a regressar a casa.
Entro, estico o braço para pendurar no cabide o casaco molhado da chuva e o casaco cai, não há cabide. Pesado, amorfo, ensopa o tapete. Não quero saber. Atravesso o corredor e abriria a porta para a sala, se porta houvesse. Se houvesse sofá, sentar-me-ia nele, mas nem isso. Há uma manta qualquer a um canto. Vou até lá, sem grande esperança de que aconteça algo interessante, mas vou na mesma, afinal nunca se sabe, não é? Nada acontece.
Nada se passa, mas a pedra vem rolando.
Fecho os olhos e vejo-a: a pedra magnífica, rasgando o céu, uma pedra normal que pode mudar tudo, mas se vem, ainda vem longe. Até lá, vou tendo frio, vou regressando a casa.
Maldita diferença. Maldita indiferença. Maldita tu, Ana Maria.
Levanto-me, vou até à janela, olho o céu e sou o único. Será que a pedra está lá? Não, ainda não, claro que não. Não te vejo, não quero que me vejas, não quero querer-te, mas quero-te e é tudo mentira, é tudo falso, só este sítio é real, só esta cinza. Porque é que isto não rebenta? Rebenta, vá lá. Fecha a janela por mim. Tranca-me. O que é isto?
Começo a achar que tu não és tu: há algo de estranho em tudo isto.
Onde está a arma quente?